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Governo estimula consumo e isola ainda mais o BC no combate à inflação, segundo economistas



Executivo e Congresso agem em sintonia para estimular a demanda, adiando, assim, os efeitos da alta dos juros no combate ao aumento dos preços

PORTO VELHO, RO - O choque de preços é internacional, mas o Banco Central (BC) encontra no governo um adversário interno no combate à escalada inflacionária, dizem economistas. A avaliação é que, se o BC tenta esfriar a economia para domar a alta dos preços, o governo do presidente Jair Bolsonaro (PL), na direção contrária, age em sintonia com o Congresso para estimular a demanda, adiando, assim, os efeitos do remédio monetário - a alta dos juros - no aumento dos preços.


Em conjunto com sinalizações de relaxamento na área fiscal, que levam à piora de expectativas sobre a trajetória da inflação, movimentos feitos pelo governo desde o fim do ano passado isolaram o BC no momento de enfrentar os impactos nos preços de alimentos e combustíveis vindos da guerra na Ucrânia. Como consequência, os juros vão subir mais, e não devem voltar a cair antes de março do ano que vem.

O governo pisou no acelerador ao antecipar renda com a liberação, desde já, do décimo terceiro de aposentados e a autorização do saque de até mil reais do FGTS. Em paralelo, a expectativa é que os investimentos públicos, incluindo aqui os de governos estaduais e prefeituras, ganhem força em ano eleitoral. São movimentos que contribuem para transferir para o segundo semestre os efeitos do choque monetário na atividade econômica, adiando consequentemente o processo de queda da inflação.

Assim, economistas ouvidos pelo Estadão/Broadcast são categóricos na avaliação de que o BC está sozinho para realizar um trabalho que já seria naturalmente desafiador após a pandemia, pela necessidade de medidas emergenciais exigirem a maior expansão monetária do real desde o lançamento da moeda.

Entre eles está o ex-diretor de Política Monetária da autarquia, Aldo Mendes, que classifica como hercúlea e solitária a batalha do BC no combate à inflação. "Eu acho que é uma tarefa hercúlea, essa do BC de combate à inflação. Ele não tem nenhuma ajuda vinda do outro lado da Esplanada", aponta o ex-diretor.

"É como dirigir um carro e pisar no freio e no acelerador ao mesmo tempo. O freio não terá a mesma eficiência. O mesmo acontece quando políticas de estímulo à demanda atuam contra o aperto monetário", complementa Fábio Akira, economista-chefe da BlueLine e ex-JP Morgan.

Para Mendes, a política fiscal vinculou-se à agenda eleitoral, não restando outra opção a não ser manter a taxa de juro em elevação. Segundo ele, o quadro, já complicado pela inflação disseminada, ficou mais difícil diante do aumento de juros mais rápido nos Estados Unidos, que contém o alívio propiciado pela valorização do real. "Vejo o governo continuando a gastar na ilusão de que a arrecadação está aumentando, e um BC mantendo o juro em elevação, sem decretar o fim do ciclo de alta", resume.

Canal das expectativas

O governo não compromete a eficácia da política monetária apenas lançando medidas que reforçam a demanda agregada. Os preços refletem também as expectativas, e o Planalto não contribui para melhorar as previsões sobre a inflação à frente quando alimenta incertezas sobre os rumos das contas públicas.

Para Adauto Lima, economista-chefe da gestora Western Asset, enquanto a política monetária tenta, com aumento de juros, esfriar o consumo, o governo tem lançado medidas de expansão no sentido contrário. Como resultado, a tarefa do BC torna-se mais árdua. "Com a surpresa da arrecadação, era para o governo caminhar para um superávit primário, não déficit primário", comenta Lima.

Nos últimos três meses, o presidente Jair Bolsonaro promoveu desoneração de impostos - que não chega ao consumidor justamente porque o governo tenta manter a demanda aquecida - e acenou com um aumento de 5% nos salários de servidores. Esta última seria uma despesa permanente, assim como o pagamento de R$ 400 do Auxílio Brasil, após medida provisória aprovada pelo Congresso.

Tudo isso aconteceu depois de o governo ter tornado flexível o regime fiscal, abrindo espaço a mais gastos no orçamento, na PEC dos Precatórios.

Além disso, o governo já indicou planos de rever a regra do teto de gastos para poder investir mais se Bolsonaro conseguir a reeleição, alinhando-se à ideia do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), seu principal adversário nas eleições de outubro.

Sem respaldo em mudanças estruturais nas contas públicas, as sinalizações preocupam quanto à trajetória da dívida, já que o recorde que vem sendo apresentado na arrecadação é atribuído por economistas a causas circunstanciais: a própria inflação persistente, o salto das cotações das commodities e a recuperação cíclica após o choque da crise sanitária.

Na quarta-feira, ao comunicar o aumento dos juros de referência (Selic) em mais um ponto porcentual, para 12,75%, e antecipar que a taxa seguirá subindo em junho, o BC voltou a citar a incerteza sobre o futuro do arcabouço fiscal entre os riscos de alta da inflação.


Fonte: Estadão

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