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Entenda como Nicolas Cage foi de uma aposta de Hollywood a meme


Ator interpreta caricatura de si mesmo como uma estrela decadente e excêntrica em 'O Peso do Talento', que estreia agora


PORTO VELHO, RO - A carreira de Nicolas Cage, que já se estende por quatro décadas e acumula mais de cem créditos, pode ser mais bem representada pelo casaco de pele de cobra usado pelo ator em "Coração Selvagem" —para o personagem Sailor Ripley, um jovem fora da lei metido a Elvis Presley, um "símbolo de individualidade e da crença na liberdade pessoal".

Numa entrevista com Marilyn Manson, Cage contou que ele mesmo comprou o casaco num brechó —queria fazer uma referência a Marlon Brando em "Vidas em Fuga". Depois de ler em um livro de Stanislavski que a pior coisa que um ator poderia fazer era imitar outro ator, ele decidiu quebrar a regra e criar uma colagem ao estilo de Andy Warhol.

No filme de David Lynch, há uma cena em que Sailor é ridicularizado por parecer "um palhaço" com o casaco chamativo —um prenúncio, talvez, da percepção pública de Cage depois de fracassos extravagantes como "O Sacrifício" e "Motoqueiro Fantasma". Para alguns, um casaco de pele de cobra denota ousadia e originalidade. Para outros, é espalhafatoso demais.

Seja qual for a sua opinião, poucos atores têm uma filmografia tão eclética. Mesmo tendo trabalhado com o tio Francis Ford Coppola, Cage se desfez do sobrenome famoso para trilhar um caminho próprio. Além de Lynch, colaborou com os irmãos Joel Coen e Ethan Coen e outros diretores de peso, como Michael Bay, John Woo, Brian De Palma, Martin Scorsese, Spike Jonze, Ridley Scott, Oliver Stone e Werner Herzog. Quase foi um Super-Homem cabeludo no filme que seria dirigido por Tim Burton, que acabou sendo cancelado.

De comédias absurdas como "Arizona Nunca Mais" foi até o drama pesado de "Despedida em Las Vegas", que garantiu a ele um Oscar em 1996. Foi o par romântico de Cher em "Feitiço da Lua", uma espécie de Indiana Jones em "Tesouro Nacional" e o vilão exuberante de "A Outra Face". Em "Adaptação", fez irmãos gêmeos de personalidades opostas.

No fim dos anos 2000, Cage perdeu a fortuna que conquistou com blockbusters de ação como "A Rocha" e "Con Air - A Rota de Fuga". Cuidando da mãe que sofre de esquizofrenia e esbanjando aquisições excêntricas, como uma mansão mal-assombrada em Nova Orleans e um raro crânio de dinossauro, passou a dever milhões em imposto de renda e a credores diversos.

Mesmo aceitando todo tipo de papel para quitar as dívidas, Cage sempre levou o seu ofício a sério. Quando se rendeu ao cinema independente, conquistou uma nova legião de fãs com longas de terror como "Mandy" e "A Cor que Caiu do Espaço". Pela sua sensível atuação no drama "Pig", críticos e cinéfilos torceram por mais uma indicação ao Oscar.

Tal qual um artilheiro em final de campeonato, Cage sempre dá 110% de si mesmo, seja na série A, B ou C. Os resultados podem variar, mas seu comprometimento é constante. Para ele, atuar é fazer mágica, usar a imaginação para causar um efeito no mundo material. Suas inspirações incluem performances do expressionismo alemão, da era de ouro de Hollywood e do kabuki.

Por fazer escolhas grandiosas, Cage se tornou um alvo fácil dos memes. Montagens como "Nicolas Cage pirando" ou "40 clipes do Nicolas Cage gritando em um minuto" se espalharam pelo YouTube, mas o ator aprendeu a levar numa boa. Numa sessão de perguntas no Reddit, falou que encara o meme como um reconhecimento, algo que retrata um movimento da cultura pop.

Com o passar do tempo, a apreciação irônica de Nicolas Cage tem se tornado cada vez mais sincera. Entre personagens esdrúxulos, como o lunático que acredita ser um vampiro, e anedotas estranhas, como a vez que foi perseguido por um mímico no set de "Vivendo no Limite", não há outra celebridade viva capaz de proporcionar tanto entretenimento.

Em 2019, Nicolas Cage recebeu um convite do diretor Tom Gormican para interpretar o seu papel mais desafiador, o de Nicolas Cage. Em "O Peso do Talento", que estreia agora nos cinemas, ele vive um ator decadente que, para fugir da falência, topa fazer uma aparição na festa de aniversário de um ricaço —na vida real, foi o cachê deste filme que, enfim, aniquilou as suas dívidas.

A princípio, Cage tinha receio de ser parodiado como nos esquetes de Andy Samberg no "Saturday Night Live" entre os anos de 2009 e 2012. Em entrevista à Rolling Stone, disse que acabou aceitando por acreditar que, dentro da razão, é preciso ir atrás daquilo que nos provoca medo. Sua carreira, afinal, é repleta de riscos.

Nicolas Cage durante evento do filme 'O Peso do Talento', nos EUA - Mario Anzuoni/Reuters

O Nicolas Cage de "O Peso do Talento" é um pai omisso, que sobrecarrega a filha adolescente com indicações de clássicos como "O Gabinete do Dr. Caligari". É uma versão fictícia do ator, que chegou a recusar "Matrix" e "O Senhor dos Anéis" para não passar anos longe da família, filmando na Austrália ou na Nova Zelândia.

Outra diferença considerável é que, na comédia, o ator é atormentado por Nicky, uma espécie de manifestação pura do ego personificada por um Nicolas Cage rejuvenescido digitalmente, que faz alusão ao seu comportamento bizarro no programa britânico "Wogan", quando promovia "Coração Selvagem" –na época, ele entrou no palco dando um mortal e vários chutes no ar.

Aos 58 anos, Cage diz olhar para aquela participação com vergonha. No mês passado, retornou ao circuito dos talk shows, após uma longa ausência, para falar de "O Peso do Talento". No programa de Jimmy Kimmel, pareceu calmo e relaxado. Em vez do casaco de pele de cobra, usou um brilhante terno prateado. Ainda ousado. Ainda original.

O PESO DO TALENTO

Quando Estreia nesta quinta (12)
Onde Em cartaz nos cinemas
Elenco Nicolas Cage, Pedro Pascal, Sharon Horgan
Produção EUA, 2022
Direção Tom Gormican

Fonte: Folha de São Paulo

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