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ELIZE MATSUNAGA - 10 ANOS DEPOIS DO CRIME


Prestes a deixar a penitenciária, advogada reorganiza a vida, pretende abrir empresa de costura e lutar para reencontrar a filha e exercer a maternidade

PORTO VELHO, RO - Elize Araújo Kitano Matsunaga tem hoje 40 anos, um quarto da vida passou atrás das grades. Até agora não abandonou o sobrenome do marido, morto com um tiro na cabeça e esquartejado em maio de 2012 em São Paulo. Amadurecida, de cabelos loiros mais curtos, ela está pronta para deixar a famosa penitenciária feminina de Tremembé, no interior de São Paulo, onde também estão Suzane von Richthofen e Anna Carolina Jatobá, conhecidas por terem praticado crimes que ganharam dimensão nacional.

Desde março de 2021, poderia cumprir em liberdade o restante da pena de 16 anos e três meses pelo assassinato de Marcos Matsunaga, mas uma mudança no entendimento da legislação atrasou a saída. A expectativa é que ela deixe a penitenciária Santa Maria Eufrásia Pelletier nos próximos meses. Para isso aguarda, ansiosamente, na fila, um psiquiatra para fazer o exame criminológico.


Antes que isso aconteça, ela põe a vida em dia. Recentemente renovou a carteira de habilitação. Aproveita as “saidinhas” para regularizar pendências bancárias, impostos e não quer ficar com o nome sujo. Sonha em abrir a própria empresa e costurar roupas para pets.

O carro, uma Mitsubishi Pajero TR4 2010 verde, usado no dia do crime para espalhar as partes do corpo do marido por uma estrada de Cotia, na Grande São Paulo, está há dez anos parado na garagem. Os débitos de IPVA foram quitados e ela espera agora vendê-lo.

O maior sonho de Elize, no entanto, não é somente regularizar a vida para deixar a prisão. Sua grande motivação é poder rever a filha, hoje com 11 anos. Em setembro do ano passado, Elize deixou a penitenciária com uma toalha branca bordada por ela, à mão, com a frase "minha filha, te amarei além da vida”.

“Ela bordou com muito carinho. Começou escrevendo cartas para a filha e tenta de algum jeito se comunicar com ela. Mas é discreta, tem respeito à filha e à família do Marcos. Tudo o que ela faz é voltado para a filha”, conta a advogada cível de Elize, Juliana Fincatti Santoro.



Juliana foi professora de direito civil de Elize por cinco anos quando ela se preparava para ser advogada. Ela é casada com Luciano Santoro, que também lecionou, por um ano, direito penal à então aluna da faculdade. Desde o crime, os dois acompanham os passos dela.

“Ela se arrepende muito do que fez, não porque foi punida. Ela se arrepende por ter tirado o pai da filha dela. Assim como ela cresceu sem o pai, fez a filha dela também crescer sem pai. Esse é o maior arrependimento dela”, revela o advogado criminalista Luciano Santoro.

Há barreiras que a impedem de reencontrar a filha quando estiver em liberdade. Meses após a morte de Marcos, os Matsunaga entraram com uma ação de destituição do poder familiar. Isso significaria quebrar de vez o vínculo de mãe e filha e até remover o nome de Elize da certidão de nascimento.

O processo se arrasta há uma década, ainda sem previsão para uma sentença. São três laudos periciais com a participação de Elize, além de outros externos, contratados pela família Matsunaga e realizados por profissionais renomados, sem entrevista com a condenada. O intuito, segundo os advogados, é provar que ela seria desequilibrada, psicopata e, assim, não teria condições de exercer a maternidade.

“Ela lida com pesar e muito medo porque é um processo bastante grave você apagar o vínculo jurídico entre mãe e filha, embora ela saiba que o vínculo biológico jamais vai ser apagado. É muito importante essa filha para ela, é a razão de ela viver, de enfrentar tudo isso, suportar a prisão e buscar se reerguer na vida”, relata a advogada.

A garota vive bem com os avós paternos, que estão com 86 anos, e não tem nenhum contato com os familiares de Elize e muito menos com a mãe, que nem sequer sabe a aparência da filha. Nem mesmo por foto. O temor da família Matsunaga é que ela procure a criança sem consentimento.



Para comprovar a paternidade, na época foi feito um exame de DNA. Apenas nos três primeiros meses após o crime, a bebê ficou aos cuidados da tia de Elize, conhecida como Rose.

“A consequência jurídica desse processo é deixar a criança sem pai nem mãe, o que, a nosso ver, é bastante prejudicial porque ela tem direito constitucional à própria história, ao convívio familiar. Houve uma tragédia nessa família, mas houve também um movimento da família do Marcos para apagar a existência desse crime da história da criança”, destaca Juliana Fincatti.

No futuro, a filha, que já não tem o pai, ficaria também sem poder contar com a mãe para fins sucessórios, exercício de guarda, segurança e educação. Quando completar 18 anos, poderá também decidir se quer saber de sua história e morar fora do país.

Segundo a defesa, Elize promete respeitar o desejo da filha, mesmo que ela não queira contato com a mãe. Mas vai continuar tentando um reencontro, via judicial, com visita assistida e supervisionada para preservar a criança.

A advogada Patrícia Kaddissi, que representa a família Matsunaga, foi procurada pelo R7, mas afirmou que não tinha interesse em comentar o assunto.

“Seja uma mosca no meio do pátio”

Discreta, Elize teve de se adaptar e não chamar a atenção na carceragem. Seguiu a recomendação do advogado de “ser uma mosca no meio do pátio” e evitar confusão por problemas disciplinares.


Para ocupar o tempo, fez todos os cursos disponíveis na penitenciária, um deles sobre como lidar com aspectos emocionais, lê livros para ajudar na remissão da pena e trabalha oito horas por dia na oficina de costura. Pelo serviço, recebe um salário, que não pode ser menor do que três quartos do salário mínimo.

A oficina fica em um galpão com uma linha de produção bem equipada, com estações de corte, modelagem e máquinas modernas. À frente, um tablado reúne as coordenadoras, posto que já foi ocupado por Elize.

A habilidade foi desenvolvida dentro da unidade. Ela não tinha antes nenhuma familiaridade com costura ou artesanato. Hoje é capaz até de consertar as máquinas. Trabalha para a Fundap (Fundação do Desenvolvimento Administrativo) e confecciona roupas de animais para o canil da PM e dos bombeiros. Foi a partir daí que começou a pensar em abrir o próprio negócio.

Também costurou uniformes para as forças de segurança e para alunos da rede municipal.



Elize só deixa a penitenciária durante 'saidinhas' REPRODUÇÃO / ULLISSES CAMPBELL

Mesmo estando no regime semiaberto, ela só deixa a penitenciária durante as saidinhas. Caso obtivesse um emprego além dos muros, precisaria de autorização judicial para exercê-lo.

Ao fim do expediente, retorna ao alojamento que divide com outras 80 presas. O espaço é um galpão com beliches, uma TV, banheiros e sete chuveiros de água quente. Embaixo há um refeitório, uma biblioteca, um pequeno salão para estudos e receber visitas e uma sala da Funap (Fundação de Amparo ao Preso). Não há pátio, e elas são obrigadas a lavar a louça na pia do banheiro.

Elize é descrita pelos advogados como uma pessoa culta, com duas profissões: bacharel em direito e técnica de enfermagem. Não faz uso de remédios controlados e, até onde se sabe, não tem namorado.

“Ela é uma pessoa que tenho absolutamente certeza que não volta a praticar outros delitos, reincidência. É uma pessoa que eu não tenho uma preocupação de que vá voltar ao sistema carcerário”, afirma o advogado.



Fora das grades

O elo familiar de Elize são a tia Rose, irmã da mãe, que já faleceu, e a avó, que ainda mora na pequena Chopinzinho, no interior do Paraná, onde Elize nasceu. O pai abusava do álcool e deixou a família, que era pobre, ainda na infância.

Da avó que a criou, fala com muito carinho, segundo os advogados: “Quando fala dela, você vê um amor maior, um brilho no olhar, um sentimento de que está lembrando do passado. Tem um laço afetivo forte com a avó”.



A tia é a única que costuma visitá-la na penitenciária e com quem passa o tempo nas saidinhas. Para que possam passar parte do domingo juntas, a tia enfrenta 18 longas e desgastantes horas de viagem de ônibus do Paraná até Tremembé. Na pandemia, os encontros eram online.

Quando é permitido deixar a penitenciária, Elize vai para um apartamento alugado em uma cidade próxima, cujo endereço não foi revelado. Há notícias de que ela comprou um apartamento em Franca, no interior paulista, mas os advogados não confirmam a informação.

“É como se fosse a mãe dela, não é uma tia. Da mãe, ela não guarda mágoa, ela entende que foi uma pessoa muito sofrida, reconhece que era trabalhadora, foi para a cidade grande para ser empregada doméstica dos outros e deixou as filhas com os avós, mas tinha uma relação estremecida. Entendo que a Elize não conheceu o que é amor de mãe”, relata Luciano Santoro.

Aos 15 anos, Elize foi abusada pelo padrasto, dentro de casa, ainda em Chopinzinho. Quando ela relatou o ocorrido, a mãe teria culpabilizado a adolescente. Com isso, a filha fugiu e foi para o sul do país. Na volta ao Paraná, foi morar com a tia e a avó. O estupro foi mantido em segredo na família até ser citado no julgamento de Elize, em 2016.

Tem duas irmãs, uma delas filha do padrasto. Sobre a outra irmã, o advogado diz que elas trocam cartas. Elize recebe muitas correspondências, algumas até de outros países.

De Chopinzinho, quer distância.

O crime

Marcos Matsunaga foi morto no dia 19 de maio de 2012 na cobertura onde morava na Vila Leopoldina, zona oeste de São Paulo. Elize acabava de voltar de viagem a Chopinzinho com a filha. Foi Marcos quem as buscou no aeroporto.
Em depoimento no júri popular, em dezembro de 2016, Elize revelou ter atirado no marido durante uma discussão: “Só queria que ele se calasse”.

Antes da briga, o casal havia pedido uma pizza. Imagens de câmeras de segurança do prédio mostram Marcos no elevador. Logo após, Elize revelou que sabia que era traída porque tinha contratado um detetive particular.


Na versão dela, o marido disse que ela havia sido muito audaciosa por contratar um profissional usando o dinheiro dele, e foi então que recebeu um tapa no rosto. Elize foi até outro cômodo e pegou a arma. Mesmo assim, ele teria avançado na direção dela, xingando, chamando-a de prostituta, ofendendo também a família dela e lembrando do passado como garota de programa. Marcos teria dito: “Eu tirei você do lixo e vou mandar você de volta para esse mesmo lixo”. Segundo ela, o marido ameaçava interná-la e dizia que ela nunca mais veria a filha.

Elize apontou a arma na direção de Marcos. Surpreso, ele chegou a rir, na versão dela, e continuou a discussão. O tiro atingiu a cabeça do marido. A pistola calibre .380 havia sido um presente da vítima à mulher.

Magoada pela traição e com raiva das ofensas ouvidas, ela afirmou, no interrogatório no Fórum Criminal da Barra Funda, que não premeditou o crime, mas que, naquele momento, "o coração estava na garganta".


A decisão de ocultar o corpo veio pelo medo de ser presa e perder a guarda da filha de 1 ano e 1 mês. Ela esquartejou o corpo de Marcos em seis partes para que pudesse transportá-lo em malas.

Enquanto Elize tentava tirar o corpo do apartamento sem levantar suspeita, a filha e a babá estavam o tempo todo em outro cômodo da casa.

De acordo com Luiz Flávio Borges D’Urso, advogado criminalista contratado na ocasião pela família Matsunaga, doutor pela USP e ex-presidente da OAB-SP, Marcos foi degolado vivo.

“O que se comprovou no laudo é que a causa morte não foi o tiro que ele recebeu, mas sim asfixia, uma vez que ele respira o sangue proveniente do corte que recebeu no pescoço. Ele morre sufocado. Essa aspiração se deu porque ele começa a ser esquartejado, iniciando-se pela degola, quando ainda estava vivo. Isso é uma comprovação técnica irrefutável”, assegura.

Sobre a maneira usada no desmembramento do corpo, ela relatou que já havia trabalhado em um centro cirúrgico como técnica em enfermagem e negou o envolvimento de outra pessoa no esquartejamento.


Elize foi flagrada carregando três malas pelas câmeras de segurança. As partes do corpo foram colocadas em sacos de lixo plásticos e jogadas na beira de uma estrada de Cotia, na Grande São Paulo, em um raio de quatro quilômetros.

No trajeto, ainda com os restos mortais, foi parada em uma blitz por causa da documentação atrasada do veículo, mas liberada na sequência.

Após comunicar o desaparecimento do marido à família, ela enviou um falso email em que afirmava que Marcos havia fugido com a amante. Dias após o crime, Elize mostrou aos sogros o vídeo com o flagrante de traição e insinuou que ele estava com outra mulher.

Vida de princesa

Hoje, preocupada com o futuro, Elize decidiu pagar o INSS como autônoma. Após o crime, conseguiu retirar do apartamento de luxo, de 560 m², “um armário de joias dadas por Marcos”, bolsas e itens pessoais.

Mas perdeu o direito aos bens. “A pessoa que mata o autor da herança e é herdeira perde o direito à herança. No caso, qualquer direito que ela tivesse com relação à herança do Marcos ela perdeu pelo que se chama juridicamente de indignidade”, explica Luiz Flávio D’Urso.

No mesmo mês do desaparecimento de um dos herdeiros, a família vendia a empresa Yoki, comprada por R$ 1,7 bilhão pela General Mills. Como empregado da empresa, Marcos receberia do pai um montante pela venda, o que não chegou a acontecer por causa do assassinato.

De acordo com o advogado de acusação, Marcos vivia para agradar à esposa e nada justificou o crime. “Nunca houve relacionamento abusivo, pelo contrário. Ele atendia tudo o que ela esboçava desejo. Às vezes ela nem precisava dizer que queria, bastava dizer que gostava, que achou interessante, fosse um produto caro, ele, de pronto, tentava atender. Era tratada como rainha por ele”, defende.



Já Luciano Santoro acredita que poucos sabiam das agressões verbais que ela sofria. “Se ela teve uma vida de princesa, acredito que em algum momento daquele casamento teve, ela tinha três empregadas, mas não acredito que nenhuma mulher queira passar por seis meses de abuso emocional. Na violência psicológica, a marca não fica, mas é muito mais latente do que um soco”, enfatiza.

Segundo a defesa, por seis meses Elize foi chamada de louca pelo marido ao confrontá-lo sobre traição. Marcos dizia que procurava uma clínica para interná-la. Em determinado momento, ela ligou para o 190 para perguntar à polícia se podia trocar as chaves do apartamento e evitar uma aproximação do marido.

“Seria um jeito de neutralizá-la, afastá-la, inclusive, da própria filha. Ele mentia. As traições foram todas provadas no processo. Ela conseguiu a prova de que ele estava mentindo, e foi aí que ele ficou enfurecido. Foi uma violência psicológica grande e silenciosa”, detalha a advogada.



Dois Marcos

Marcos Matsunaga tinha duas personalidades. Era um executivo da Yoki, responsável, quieto e pai de família. Mas também um caçador de animais, atirador, colecionador de armas e vinhos e dedicava parte do tempo às garotas de programa.

Traiu a primeira esposa com Elize, ainda uma garota de programa que conheceu pelo site MClass, e depois de casado traiu Elize com outra profissional do sexo. Repetiu o padrão. Marcos já era pai de outra menina, criada pela ex-mulher no Rio Grande do Sul.

A defesa de Elize teve acesso a um fórum de avaliação de prostitutas do qual Marcos era integrante sob o pseudônimo “Hore Rider”. A busca por garotas de programa teria se intensificado no momento da crise conjugal. Brigas e ofensas foram descritas pelas empregadas do casal.



Luiz Flávio D’Urso contesta a versão de que Marcos estava envolvido com o universo da prostituição. “Marcos nunca ostentou luxo, nem a família [ostentou luxo]. Sempre tiveram forma discreta de ser. Morava em um apartamento que, embora tivesse metragem grande, não tinha nada que revelasse a condição financeira. No que diz respeito à prostituta, ele teve confirmados dois casos. O primeiro com a própria Elize e o segundo com a garota de programa [flagrada no vídeo]. É o que se tem comprovado”, afirma.

De acordo com o livro Elize Matsunaga: a Mulher que Esquartejou o Marido, escrito pelo jornalista Ullisses Campbell, Marcos só detinha 0,5% da empresa de alimentos e recebia um salário. Sem que a família soubesse até sua morte, ele abriu uma empresa de exportação dentro da Yoki e lucrava com o negócio.

Às amantes, costumava dar carros, presentes caros e pagava por exclusividade.

Foi Marcos quem ensinou Elize a atirar. Os dois tinham gostos peculiares como comer a caça, colecionar armas e vinhos caríssimos e criar, no apartamento, uma jiboia de nome Gigi.



Elize tem esperança de exercer a maternidade. Sonhou em construir a própria família. Para isso, fez tratamentos de fertilidade até o nascimento da filha. Até hoje vive sem saber o que ela pensa sobre o crime, tampouco se será perdoada.

Uma das questões que intrigam Elize é que, na penitenciária, convive com mulheres presas que atentaram contra crianças e filhos e nem assim sofreram ações de destituição do poder familiar.

Elize agradece as mensagens de pessoas que torcem para que ela possa rever a filha. O áudio foi enviado ao advogado. “Agradeço a todas as pessoas que se compadecem com a minha causa, que compreendem a minha situação, não dizendo que apoiam ou justifiquem, é óbvio que não justifica o fato de eu ter tirado uma vida, mas que compreendem a situação. Agradeço do fundo do coração”, diz.

Citando o escritor francês Honoré de Balzac, Luciano Santoro questiona: “O coração de mãe é um abismo profundo, no fundo do qual sempre se encontra o perdão. A mãe sempre vai perdoar o filho. A pergunta que fica é: será que o filho perdoa a mãe da mesma forma?”.



Fonte: R7

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