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Após Masp voltar atrás, curadoras aceitam retomar mostra com fotos do MST


Fotógrafos não aceitam que suas imagens sejam incorporadas ao acervo, conforme sugerido pelo museu

PORTO VELHO, RO - As curadoras responsáveis pelo núcleo "Retomadas", da exposição "Histórias Brasileiras", do Masp, que havia sido cancelado após o museu vetar fotos do MST e de movimentos indígenas, aceitaram a proposta da instituição de retomar o projeto na mostra.

O museu voltou atrás na semana passada após enfrentar acusações de censura por ter vetado um conjunto de fotos de André Vilaron, Edgar Kanaykõ Xakriabá e João Zinclar. Propôs em nota pública às curadoras que a exposição "Histórias Brasileiras" —a maior deste ano no Masp—, mudasse sua data de abertura, para que o núcleo "Retomadas" pudesse ser incluído, e também propôs incorporar as fotografias ao seu acervo.

Em carta encaminhada ao Masp nesta quinta-feira, as curadoras Clarissa Diniz e Sandra Benites afirmam que aceitam a proposta do museu com a permanência das fotografias de Vilaron, Xakriabá e Zinclar. Elas propõe, no entanto, mudanças na condução do núcleo, como nos direitos autorais envolvidos na mostra e na ampliação da gratuidade de entrada no museu.

O Masp afirma que acabou de receber a carta e que vai avaliar e conversar com as curadoras, mas por ora não quis comentar o conteúdo.

Além de propor que o museu não detenha os direitos autorais de "Retomadas", elas sugerem que o núcleo se torne um trabalho "copyleft", ou seja, sem quaisquer barreiras à sua utilização, difusão e modificação.

"Como esta é uma luta coletiva, não nos interessa submeter as retomadas às normas de proteção de propriedade intelectual", afirmam.

Ainda na esteira de uma proposta comunitária, elas afirmam que o MST vai convocar movimentos sociais para um ato cultural no vão livre do Masp na inauguração de "Histórias Brasileiras".

Os fotógrafos, porém, não aceitaram que suas imagens sejam incorporadas ao acervo do Masp, o maior do país. Os três artistas propõem que a instituição, ao invés de adquirir as obras, faça impressões das fotos em tamanho de pôster e distribua o material gratuitamente para os visitantes de "Histórias Brasileiras".

O museu e seus funcionários negaram que tenham censurado as fotos do MST, e alegaram repetidas vezes que o veto se deu devido às curadoras terem pedido que as imagens fossem incluídas na mostra já fora do prazo. Elas afirmam que nunca foram informadas de tais prazos e que cumpriram as diretrizes do museu na produção da exposição.

Na carta desta quinta, as curadoras dizem ter recebido com satisfação a nota publicada pelo Masp e o gesto do museu em reconhecer suas falhas na relação com elas durante o processo de produção da mostra.

Elas também chamam a atenção para a ausência, no comunicado do Masp, de uma menção ao pedido de demissão de Benites, que dizem ter sido a "maior das consequências diretas" do veto ao conjunto de fotografias. Benites era a primeira curadora indígena num museu brasileiro.

"A inexistência de uma reposta à saída da curadora —tanto na nota, quanto nas tratativas institucionais (posto que até o momento não houve retorno do Museu à sua carta de demissão) —é um alerta acerca dos apagamentos insistentemente perpetrados pelas políticas do Masp", afirma a carta.

Mostra de grandes proporções, a exposição "Histórias Brasileiras" reunirá 300 obras selecionadas por cerca de dez curadores —toda a equipe do Masp mais convidados— e ocupará três andares do museu da avenida Paulista.

A exposição pega carona nas comemorações do bicentenário da independência do país e "oferece novas narrativas visuais, mais inclusivas, diversas e plurais, sobre a história do Brasil", segundo a instituição.

O comunicado das curadoras sugere ainda que o museu não cobre ingressos dos visitantes durante o período dessa exposição, ou ao menos que aumente os dias de visitas grátis. De acordo com a carta, isto seria o "exercício de um dos princípios ético-políticos das retomadas: a redistribuição dos territórios, capitais e privilégios historicamente concentrados nas mãos das elites".

Atualmente, a entrada no Masp é grátis todas as terças e na primeira quarta-feira do mês. Nos demais dias, o ingresso custa R$ 50, o maior valor de um museu no país.

ENTENDA O CASO

O Masp, principal museu do país, enfrenta uma crise após o cancelamento de um evento de lançamento de livro do Guilherme Boulos, do PSOL, e depois da decisão de duas curadoras de cancelarem um núcleo da maior mostra do ano na instituição, "Histórias Brasileiras".

Foi no começo deste mês que Sandra Benites, curadora-adjunta que acaba de pedir demissão após o caso, e Clarissa Diniz, curadora convidada da instituição, informaram que cancelariam o núcleo denominado "Retomadas". O motivo, segundo elas, foi um veto do museu a um conjunto de fotos do MST que constituiria o cerne deste núcleo.

O museu afirma ter recebido a relação desse material da curadoria com pouco menos de três meses de antecedência da abertura da mostra, prevista para julho, o que extrapola os prazos para a execução de procedimentos como a solicitação do empréstimo das fotos e a cessão do uso de imagens. Também nega que a ação seja censura de conteúdo.

Já as curadoras afirmam que não foram informadas sobre essa data máxima definida pela instituição. Num email enviado aos artistas comunicando o cancelamento do núcleo, elas disseram que "apesar do cuidadoso trabalho realizado, para a nossa surpresa, o Masp não concordou com a integral inclusão da representação das 'Retomadas' pelo suposto descumprimento de um prazo que não nos foi informado pela produção ou pela curadoria do museu".


Fonte: Folha de São Paulo

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