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Perda de navio e envio de armas testam discurso de Putin sobre Guerra da Ucrânia



Confronto com Ocidente é útil para russo manter apoio, mas pode implicar escalada

PORTO VELHO, RO - O afundamento do cruzador russo Moskva e o crescente influxo de armamento pesado de países da Otan para a Ucrânia, ambos fatores que até este momento não são decisivos para o rumo da guerra iniciada pela Rússia, testam os limites da retórica belicista de Vladimir Putin.

Ao longo dos quase dois meses de guerra, Putin tem buscado pintar o conflito como um embate contra o Ocidente, o que já estava em um dos "casus belli" da invasão, impedir Kiev de aderir à aliança militar.

Mas é algo que vem de longe e está incrustado no pensamento da elite russa: a noção de que a expansão da Otan a leste visou minar o Kremlin no pós-Guerra Fria. A isso é adicionado o apoio explícito do Ocidente a movimentos antirrussos na Ucrânia desde os tempos da algo farsesca Revolução Laranja, de 2004.

O resto é derivação: a invasão de 24 de fevereiro trouxe o previsível tsunami de sanções ocidentais contra o Kremlin, e a popularidade de Putin como um cruzado eslavo foi para as alturas neste primeiro momento, apesar do evidente pânico que toma a classe média instruída russa.

De seu lado, o presidente por ora busca manter-se flutuando economicamente com a ajuda da parte do mundo que não aderiu ao programa de punição, China e Índia à frente. E acirrou seu discurso contra o Ocidente, pintando a guerra cada vez mais como uma luta maior, mirando ao fim Washington.

Desta forma, ameaçou no dia 1 do conflito usar armas nucleares contra quem interviesse e voltou a sacar o tema quando Finlândia e Suécia se colocaram na fila de alistamento da Otan.

Autoridades russas dizem dia sim, outro dia também, que comboios com armas de origem ocidentais serão atacados. Por ora, é retórica, mas isso pode estar mudando. Primeiro, o Moskva (Moscou, em russo, para adicionar injúria ao insulto), que não ficou acima da linha d'água. A essa altura, é irrelevante se foi atingido por mísseis, uma derrota dura e apenas a segunda de um navio de seu porte desde a Segunda Guerra Mundial, ou se o paiol de armas explodiu, o que implica coisa ainda pior —desleixo.

O que realmente importa são as reações. Para Moscou admitir a versão vexatória do acidente, é bastante provável que tenha sido mesmo um ataque. Já os EUA dizem que sim, foram mísseis, mas de fabricação ucraniana. À CNN americana no domingo (17) Volodimir Zelenski, o teatral presidente em Kiev, fez cara de sonso e desconversou, apenas celebrando a perda de poder de fogo dos russos.

O que tudo isso diz? Que ninguém quer arriscar uma escalada óbvia. Uma coisa é um tanque T-72 ser destruído por uma arma americana Javelin, ou mesmo um helicóptero de ataque Mi-28 ser derrubado por um lançador portátil de mísseis antiaéreos britânico Starstreak.


Se ficasse claro que o Moskva foi afundado por um ou dois mísseis americanos Harpoon, que o Reino Unido disse que forneceria a Kiev, a situação seria diferente. A Marinha Russa, que tem sido basicamente uma lançadora de mísseis de cruzeiro Kalibr de pequenos navios da Frota do Mar Negro e funcionado para coordenar o espaço aéreo na região, uma das principais tarefas do Moskva aliás, nesta guerra. A perda do grande navio, obsoleto em vários sentidos que fosse, já é dura por si para o orgulho naval russo.

Mas a cortina de fumaça de todos os lados mostra que ninguém quer, por toda a falação, escalar a guerra para algo que leve Putin a pensar em usar o proverbial botão vermelho da bomba atômica. Enquanto isso, os poloneses fizeram passar pela fronteira um número incerto de tanques T-72 de seus estoques, assim como antes agiram os eslovacos com sistemas antiaéreos e blindados.

Os prometidos ataques de Putin a esses carregamentos, ou aos mais difíceis de rastrear comboios com Javelin, Starstreak e outros aparelhos portáteis, ocorreu. Houve um bombardeio com mísseis a uma base que recebia instrutores ocidentais e que distribuía essas armas, mas foi mais um aviso do que um padrão.

A questão é que os ocidentais estão elevando, pouco a pouco, sua aposta no armamento da Ucrânia. Até aqui, nem a perda do Moskva nem os tanques poloneses mudarão a batalha do Donbass que se avizinha, mas ninguém sabe o que pode acontecer a seguir.

Na superfície, a balbúrdia continua: na TV estatal russa, questionamentos sobre o que ocorreu com o Moskva se confundem com apresentadores falando em uma Terceira Guerra já em curso, enquanto no Ocidente especialistas se revezam sobre o risco de o russo dar um susto com uma arma nuclear tática.

Assim, os limites da agressividade da fala de Putin estão sob teste, embora seja uma prova na qual todos os envolvidos movimentam suas peças lentamente.


Fonte: Folha de São Paulo

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