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Entrevista com a artista plástica rondoniense Angella Schilling: a arte é terapia



"A Dra. Nise da Silveira foi pioneira na descoberta do uso da Arte como terapia, transformando doentes mentais em pessoas mais calmas e acessíveis. Este é um fato comprovado".

É possível definir a Arte?

Esta semana, a entrevistada da ARL é a artista plástica Angella Schilling, professora, curadora independente, titular efetiva da Academia Rondoniense de Letras, Ciências e Artes – ARL, onde ocupa a cadeira nº 21, cujo patrono é José Otino de Freitas. Graduada pela Faculdade de Belas Artes – Curso de Licenciatura e Plástica no Rio Grande do Sul, Pós Graduada em Metodologia do Ensino Superior - Faculdade Católica de Rondônia, em Porto Velho.

1. ARL - Você é gaúcha, com uma brilhante trajetória no mundo das artes plásticas, por que veio parar em Porto Velho?

Tudo por um amor!

2. ARL – O conceito de Arte é muito amplo, porque envolve a forma do ser humano expressar suas emoções, sua história e sua cultura, através dos valores estéticos da música, da escultura, da pintura, do cinema, da dança, etc. A Arte já foi definida por muitos estudiosos, do filósofo ao psicólogo, mas para você, em poucas palavras, é possível definir a Arte, o que é a Arte?

Atualmente a definição de Arte é mais complexa do que há alguns anos atrás, quando Arte era simplesmente a expressão do BELO! O que é belo para um, necessariamente, não o é para o outro. Uma boa ideia com o suporte de uma boa proposta, bem apresentada é considerada Arte. Um conceito pode se transformar em Arte, um protesto, um alerta ou um pensamento, mesmo que resulte em uma Arte efêmera. Para mim, a Arte ainda é expressar o belo, o que há de melhor dentro e fora do ser humano. Através dela, o artista, valendo-se das mais diversas técnicas e formas de expressão, se comunicará. A Arte pode ou não ser apreciada por um grande público. Mesmo a “intangível” instigará, fará com que o próximo repense, crie, sonhe, podendo contribuir para um melhor entendimento do seu entorno, na transmissão de mensagens e ideais.

3.ARL - Você acredita nas Artes Plásticas como terapia?

A ARTE SALVA!

Funciona como terapia, afasta a melancolia, o estado depressivo. A Arte possibilita um mergulho em si mesmo, acalmando a dor, transformando a realidade na qual vivemos e que, de algum modo, nos causa irritabilidade e transtorno. Ela muda o foco, dribla a problemática, permite que observemos novos pontos de vista. Os benefícios são muitos para quem faz Arte: disciplina, paciência, organização... A Arte gera paz. De alguma forma apreendemos algo que nos fortalece.

4. ARL - A psiquiatra carioca, Nise da Silveira, ex-aluna de Carl Jung, disse que é possível descobrir, por trás de cada louco, um artista; por trás de cada artista, um ser humano com fome de beleza e sede de transcendência. É possível comprovar o ponto de vista da psiquiatra?

A Dra. Nise da Silveira foi pioneira na descoberta do uso da Arte como terapia, transformando doentes mentais em pessoas mais calmas e acessíveis. Este é um fato comprovado. Graças à sensibilidade e à perseverança dela, o resultado final foi a gradativa humanização no tratamento desses enfermos. Tenho profunda admiração por sua coragem, lembrando que ela viveu durante um período ainda obscuro da medicina psiquiátrica. Os frutos desta arteterapia foram fantásticos, chegando à descoberta de grandes artistas, como por exemplo o Bispo do Rosário, com seus trabalhos incríveis e cheios de preciosismos.

Quanto a afirmação de que por trás de cada artista há um ser humano com fome de beleza e sede de transcendência, creio que este não seja o alvo comum dos artistas visuais da atualidade. Estamos vivendo momentos de muita discórdia, agressividade, rancores e desavenças, e, dentro deste contexto, muitos buscam apontar tais fatos que, infelizmente, nada têm de belo e de transcendental. Não quero dizer que tais expressões não sejam “artísticas”. Penso que estes artistas, ao nos alertarem para estas problemáticas, de certa forma, também se contaminam com tais energias densas, deixando de lado a beleza e a sede de transcender. A Arte é o espelho do indivíduo que a faz, completamente pessoal, não é possível generalizar. São muitos os caminhos, os objetivos e os resultados.

5.ARL - Defina a sua especialidade preferida, ou seja, a gravura.

A gravura é uma paixão que amo executar! Na concepção das Artes Visuais, gravura é o corte, a incisão, o sulco, o talhe, feito em material duro, como metal, pedra, vidro, osso, madeira entre outros. A Arte de gravar é executada com o auxílio de instrumentos cortantes, resultando em efeitos próprios, que só os que estão familiarizados com ela os reconhecem. A gravura é uma Arte de múltiplos, onde se trabalha uma matriz (mãe) e a partir desta as cópias geradas são praticamente idênticas.

Só não o são porque são elaboradas uma a uma, artesanalmente. Diferentemente das estampas que encontramos nas lojas especializadas, que são executadas aos milhares por intermédio de gráficas. A gravura é uma Arte popular que convivia conosco nos jornais, nos livros, nas bulas de remédios, em cartazes, embalagens etc. Sua múltipla reprodução, além de um grande alcance como um produto mais acessível, dá a possibilidade do uso na decoração de ambientes e, em folhas soltas, alcança outro valor, nas mãos de colecionadores de Arte. Dedico-me, com mais frequência, à Xilogravura e à Gravura em Metal.

6.ARL – Sabendo que o objetivo da Arte não é apenas o belo e que ela ajuda o jovem a se expressar melhor, a compreender a História e a cultura dos povos, você acredita que a Arte, como um todo, deveria ser uma disciplina complementar, no ensino fundamental e médio?

Um dos pilares de sustentação de uma sociedade é a Arte e a consciência da necessidade da preservação e divulgação dos valores artísticos. Através da Arte é possível compreender uma sociedade, retratar diferentes épocas e contar a história de um povo. Paralelamente, os alunos em contato com as Artes Plásticas farão inúmeras descobertas, ampliando sua cultura e consequentemente sua formação como cidadãos de bem. Vivenciar a Arte, através de diversas técnicas, é essencial para propagar o conhecimento, para o crescimento cultural, o desenvolvimento mental e lógico dos nossos jovens.

7.ARL – O que fazer para que mais pessoas adquiram trabalhos artísticos, enfim a Arte é um produto de consumo da elite? Quem visita uma galeria de Artes Plásticas?

Situações complexas. Depende da educação e da cultura que o povo possui. Pessoas cultas sabem o valor de uma obra de Arte e de seus benefícios. Arte é alimento para o espírito assim como o alimento para o corpo físico! A aquisição de uma obra de Arte promove diversos benefícios. O primeiro é a certeza de que o diálogo foi estabelecido. Você, como artista, encontrou seu público, carente de sua expressão. Pacto, impacto, comunhão. O mais importante é que há uma identificação da pessoa com a obra. As pessoas adquirirão mais Arte quando houver mais educação, uma situação econômica mais confortável e quando a cultura for mais valorizada.

Arte é produto de consumo de elite?

Esta pergunta sugere outra: o que é ser elite? Dinheiro, poder, cultura, conhecimento? A Arte deve ser democrática, para todos! Há trabalhos de Arte de valores diferenciados, para todo segmento social. Os curiosos e sedentos por cultura e conhecimento são aqueles que visitam as galerias, independentemente da idade. As galerias estão abertas para todos. A Arte é uma força capaz de unir positivamente os homens. Um monumento é Arte e pode muito bem representar uma Nação. O Cristo Redentor é um exemplo. Uma estátua em ligação emocional direta com o Rio de Janeiro e o Brasil. Outras tantas pelo mundo. Se cultivarmos o gosto pela Arte, teremos cidades com maior número de galerias e museus.

8.ARL – O que representa a ARL na sua vida artística?

A Academia Rondoniense de Letras, Artes e Ciências foi um presente. O convite para ingressar à Academia foi gratificante. É uma honra fazer parte deste inquieto e seleto grupo de grandes pensadores, escritores, cientistas, médicos, artistas, professores...Cercada por cultura! É o ar que necessito respirar! Estar na Academia me confere um compromisso maior com a Arte ora executando, ensinando, ora divulgando. É compartilhar cultura!

9.ARL – O governo poderia montar salas, galerias itinerantes pelos bairros e escolas, ajudando a vender trabalhos e financiando palestras e cursos. Além dessa, que outras sugestões você daria para melhorar o relacionamento subjetivo do artista com a sociedade? Ou você acha que a Casa de Cultura Ivan Marrocos é suficiente, para manter um elo constante entre o artista e a comunidade?

A grande distância da capital, Porto Velho, em relação a outros grandes centros culturais do país, o difícil acesso prejudicam a chegada deinformações, apesar dos meios de comunicação. A Casa de Cultura Ivan Marrocos executa um trabalho fantástico! Necessitamos de muito mais, como uma tentativa de suprirmos nosso isolamento geográfico, considerando, inclusive, o aumento populacional, que muito nos solicita. Há grandes talentos necessitando de orientação. Por não haver uma “tradição”, quando poderíamos supor que um mero curso de Xilogravura ministrado por mim em Porto Velho, em Rondônia, fosse representar o país em um dos mais aclamados festivais de Gravura da Itália?

Fomos 9 artistas agraciados com tal honraria, selecionada por juízes gabaritadíssimos. A montagem de salas específicas para artes, galerias itinerantes pelos bairros e escolas, cursos, palestras seriam muito bem-vindos, como existem em outras capitais, onde a Arte é valorizada e se percebe maior interesse, por parte da população. Temos grande carência nesse quesito. Essa deveria ser uma das principais preocupações daqueles que ocupam cargos de poder decisório, em prol de nosso desenvolvimento.

As conquistas dependem dos esforços de muitos, na mesma direção. O artista é um trabalhador, eu sou uma operária da Arte e, como qualquer pessoa, tenho compromissos, contas a pagar, sobreviver não é fácil e só irá melhorar quando houver mais investimento em cultura, percebendo-se a importância e o valor da Arte para cada ser humano. As pessoas não gostam de uma boa música, de um bom filme, de dança, de belas imagens? Quantos artistas trabalharam para que isso fosse possível? Por trás de cada apresentação artística há um enorme esforço (individual e coletivo), um grande empenho que leva longo tempo em sua elaboração, para ser, finalmente, mostrado.

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.ARL − No ato da criação artística, só a inspiração resolve, sem

entrega, sem doação, sem estudo e sem disciplina? O artista já nasce pronto?

Há diferença entre a inspiração e o ato da execução. São questões discutíveis e pessoais. Cada artista vive, se inspira e executa sua Arte dependendo do seu conhecimento e da sua destreza com as técnicas. Inspiração todos têm, mas para executá-la é necessário um mínimo de conhecimento de técnica e dos materiais para o resultado não ficar tosco. Técnica é suor, labuta, dedicação. Quanto maior conhecimento e certa disciplina, maior “possibilidade” do artista se expressar bem. As pessoas nascem com aptidões específicas e se as têm para a Arte, com certeza, terão maior facilidade na sua execução, como em qualquer outra profissão. A vontade de trabalhar com Arte é uma centelha que também pode ser despertada a qualquer momento.De repente, um som, uma exposição, um filme, um cenário...Basta uma fagulha para que aflore o desejo de se expressar. É assim que nasce o ARTISTA

Entrevista feita pela: Associação Rondoniense de Letras

Fonte: Rondoniaovivo

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