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Eleição na França: por que eleitores da esquerda radical podem migrar para Le Pen


Os eleitores de Jean-Luc Mélénchon, da esquerda radical, terão peso decisivo no segundo turno das eleições presidenciais francesas, dia 24, que será novamente disputado, como em 2017, entre o presidente Emmanuel Macron, centrista, e Marine Le Pen, da direita radical.

PORTO VELHO, RO - Mélenchon, da França Insubmissa, ficou em terceiro lugar com 22% dos votos. Parte de seu eleitorado, paradoxalmente, prevê votar agora em Le Pen, que está no extremo oposto do tabuleiro político.

Em seu discurso logo após a divulgação das estimativas dos resultados do primeiro turno, Mélenchon repetiu quatro vezes aos seus eleitores, de maneira enfática, que "nenhum voto deve ser dado a Le Pen", mas sem lançar um apelo a favor de Macron.

Apesar da recomendação feita pelo líder da esquerda radical francesa, um número significativo de seus eleitores, entre 18% e 30%, segundo diferentes pesquisas divulgadas após os resultados do último domingo, prevê votar em Le Pen no segundo turno.

As projeções indicam que Macron leva vantagem, em cada pesquisa, sobre a candidata do Rassemblement National (Agrupamento Nacional, ex-Frente Nacional) na transferência de votos de Mélenchon. Mas esse eleitorado que votou na França Insubmissa indica que deverá optar principalmente pela abstenção ou pelo voto em branco ou nulo (entre 35% e 45%).

"Há uma parcela minoritária, mas significativa do eleitorado de Mélenchon que está disposta a votar em Le Pen. Há uma vantagem para Macron que não é tão grande. A disputa é real e vai ocorrer até o último momento", afirma o analista político Gaspard Estrada, da universidade Sciences Po.

Dois fatores explicam as razões pelas quais um eleitor da esquerda radical planeja votar em Le Pen. Um deles são as semelhanças de seu programa econômico com o de Mélenchon. O outro candidato da direita radical, Éric Zemmour, que obteve 7% dos votos, chegou a dizer que Le Pen "é de esquerda."

Durante sua campanha, Le Pen deixou em segundo plano as temáticas fortes de seu partido (imigração, islã e segurança), que se mantém radicais, e centralizou seus discursos na questão da melhoria do poder aquisitivo da população, em um contexto econômico de alta da inflação. Seu programa prevê, por exemplo, reduzir o tributo semelhante ao ICMS de 20% para 5,5% sobre combustíveis, eletricidade e gás e atrelar as aposentadorias à inflação.

Ela promete ainda um Estado protetor e, como Mélenchon, a realização de "referendos de iniciativa popular", uma das reivindicações do movimento dos coletes amarelos, que durante meses, em 2018 e 2019, realizou protestos na França, vários deles violentos, para exigir melhorias no nível de vida. Le Pen também destaca nessa campanha do segundo turno as "injustiças sociais."

O outro fator que contribui para um voto a favor de Le Pen no segundo turno é a rejeição ao presidente Macron em parte do eleitorado de Mélenchon.

Le Pen e Mélenchon atraem principalmente as classes populares, com renda em torno de um salário mínimo. Macron, chamado por alguns de "presidente dos ricos" foi criticado por ter deixado de lado as categorias menos favorecidas da população. Marine Le Pen, por sua vez, que deu uma guinada no discurso econômico de seu partido, se diz "adversária do poder do dinheiro."

Após ter se mobilizado na eleição de 2017 para barrar a chegada de Le Pen ao poder, parte do eleitorado de Mélenchon afirma estar decepcionado com o atual presidente e se diz hoje "cansado de construir barragens, como um castor, contra a direita radical", uma expressão que se tornou comum entre alguns políticos e eleitores da França Insubmissa.

"É uma espécie de raiva ou de desespero contra o sistema. É um eleitorado com condições econômicas mais precárias, de operários e trabalhadores com pouca qualificação profissional, que não se sente representado no discurso do Macron", afirma Estrada sobre um dos motivos que leva alguém que vota na esquerda radical a optar por Le Pen no segundo turno.

Marine Le Pen espera justamente transformar o segundo turno em uma espécie de referendo contra o presidente Macron.

"Quero dizer aos eleitores de Jean-Luc Mélenchon que sou fortemente ligada ao nosso sistema de proteção social. Tenho o projeto mais protetor. Macron representa a dureza no que diz respeito aos mais modestos", disse Le Pen em uma entrevista ao canal TF1 nesta semana.

A candidata diz ser ligada ao generoso sistema de proteção social francês, mas defende em seu programa a "prioridade nacional", que consiste em dar preferência às pessoas de nacionalidade francesa para ter acesso a moradias sociais e ao emprego e reservar as ajudas sociais também aos franceses (no caso dos estrangeiros, eles teriam de comprovar cinco anos de trabalho para receber benefícios). Como não é possível por lei fazer esse tipo de distinção por nacionalidade, Le Pen prevê mudar a Constituição.

O presidente Macron também quer atrair o eleitorado de esquerda, que preferiu o voto útil em Mélenchon porque ele tinha mais chances de qualificação. O líder francês já admitiu estar disposto a modificar seu projeto de reforma da aposentadoria, que prevê o aumento da idade mínima dos atuais 62 anos para 65 anos.

Macron também anunciou recentemente que irá atrelar as aposentadorias à inflação, medida que faz parte do programa de Le Pen. Em março, a alta dos preços foi de 4,5% na comparação anual. Macron declarou que isso já ocorreria a partir de julho.

"Estou disposto a inventar algo novo para reunir as convicções e sensibilidades diversas", disse Macron pouco depois do anúncio dos resultados do primeiro turno.

"A equação é complicada para Macron. Ele já exerceu um mandato, teve a ocasião de decepcionar parte do eleitorado e Marine Le Pen está em melhor posição do que há cinco anos", afirma o analista político Bruno Cautrès, do Centro da Vida Política Francesa da universidade Sciences Po.

Macron permanece favorito nas pesquisas de opinião, mas desta vez a disputa está bem mais acirrada do que em 2017, quando o atual presidente venceu com 32 pontos percentuais de diferença.

Nas pesquisas divulgadas nesta terça e quarta, Macron registra entre 52,5% e 55% e Marine Le Pen entre 45% e 47,5%. Em algumas delas, a diferença de pontos permanece dentro da margem de erro. No domingo, logo após o anúncio dos resultados, uma pesquisa do instituto Ifop havia indicado 51% para Macron e 49% para Le Pen.

Fonte: BBC News Brasil

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