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‘Bumbum paticumbum prugurundum’: marco da Sapucaí que deu vitória à Império Serrano faz 40 anos


Desfile inspirou dois documentários que estão no ar no Youtube


PORTO VELHO, RO - O refrão, onomatopaico, todo mundo sabe: “Bumbum paticumbum prugurundum / O nosso samba, minha gente, é isso aí / Bumbum paticumbum prugurundum / Contagiando a Marquês de Sapucaí”. Em 1982, dois anos antes de abrigar o Sambódromo, a rua que liga a Cidade Nova ao Catumbi ganhava sua primeira menção em um samba-enredo. Na época, as emissoras de rádio, a partir do lançamento do disco, em novembro, tocavam os hinos das escolas sem descanso, e o povo chegava às precárias arquibancadas de madeira com uma boa ideia do que ouviria. O sucesso do samba de Aluísio Machado e Beto Sem Braço foi o elemento central no campeonato do Império, que pela última vez ganhava o título do Grupo Especial. A escola da Serrinha desfila na madrugada desta quinta para sexta-feira, com o enredo “Mangangá”, assinado por Leandro Vieira (carnavalesco da Mangueira), e é uma das favoritas da Série Ouro para voltar ao grupo de elite.

Ou seja: em fevereiro se completaram 40 anos deste último campeonato do Império, uma das “quatro grandes” do carnaval carioca até o fim dos anos 1970, quando a Beija-Flor (e depois Mocidade e Imperatriz) quebrou o monopólio de Portela, Mangueira, Salgueiro e Império. E o que torna esse desfile tão especial, a ponto de dois documentários pela efeméride já estarem no ar no YouTube, um realizado pelo próprio departamento de comunicação da escola e outro pelo Arquivo Geral da Cidade?

— É uma história incrível, que concentra muitos dos elementos que nos fazem apaixonados pelo samba e pelos desfiles — diz o cantor e jornalista Pedro Paulo Malta, que teve a ideia, fez as entrevistas e dirigiu o filme do Arquivo Geral da Cidade, lançado na última sexta-feira. — O Império ali antecipava muito do que ia acontecer com a festa, com o visual simples e criativo e versos do samba como “Superescolas de samba S/A, superalegorias/Escondendo gente bamba, que covardia…”.

A história de Davi e Golias da folia começa com o estado deplorável em que se encontrava o Império em 1981: última colocada com o enredo “Na terra do pau-brasil, nem tudo Caminha viu”, a agremiação deveria ter descido para o segundo grupo pela segunda vez em sua história, depois da débâcle de “Oscarito, carnaval e samba — Uma chanchada no asfalto”, de 1978. Uma daquelas manobras tradicionais do carnaval aumentou o primeiro grupo de dez para 12 escolas (todas desfilavam na mesma noite, não custa lembrar), e o Reizinho de Madureira foi mantido. Mas não era só: acéfala depois da renúncia do presidente, a escola foi buscar ajuda com um velho amigo, o comerciante Jamil Salomão Maruf, o Cheiroso.

“Sempre que a escola precisava de ajuda, alguém corria no Mercado de Peixes da Praça Quinze para pegar um dinheiro com o Jamil”, lembra Jorginho do Império, cria da Serrinha e filho do fundador Mano Décio da Viola, no filme “Bumbum paticumbum prugurundum — 40 anos exaltando gente bamba”, produzido pela agremiação e dirigido por Emerson Pereira e Nathan Oliveira. “Como não havia quem comandasse a escola, fomos pedir socorro ao Cheiroso (o apelido, conta a lenda, vem da época em que Jamil vendia perfumes, sem relação com os peixes), e ele topou”, conta.

Indicação de Pamplona

O amigão aceitou ajudar a escola, mas não sobrava grana como nas coirmãs ligadas ao jogo do bicho. O professor Fernando Pamplona, um pioneiro no encontro das belas artes com o carnaval, foi contatado, mas não aceitou comandar uma escola que não fosse o seu Salgueiro. Pamplona indicou duas jovens alunas suas, Rosa Magalhães e Lícia Lacerda, e elas assumiram a bronca.

— Eu não tinha gostado do samba do Aluísio e do Beto — conta Lícia, atualmente passando uma temporada nos Estados Unidos. — Precisou o Beto ir ao nosso ateliê, que ficava num prédio da Comlurb, e cantar para mim para me convencer.

A ourivesaria em torno do histórico samba-enredo do Império é um dos principais capítulos da história: ao assumir, Cheiroso chamou de volta à escola compositores que andavam por outras agremiações, dentre os quais Aluísio Machado e Beto Sem Braço, então na Vila Isabel. Ao retornar a Madureira, a dupla viu que as parcerias já estavam todas formadas.

“Aí o Jamil nos disse para compormos em dupla”, conta Aluísio no documentário, “Eu trabalhava no Tribunal Marítimo, na Praça Mauá, e o nosso método de composição era pegar o ônibus 268, Largo de São Francisco-Curicica, e ir até a casa dele batucando nos bancos”.

Beto Sem Braço, nascido Laudemir Casemiro em 1941 e morto aos 51 anos em 1993, era famoso pelo talento e pela habilidade para arrumar confusão: coautor de sambas consagrados como “Brincadeira tem hora”, “Camarão que dorme a onda leva” e “Depois do temporal”, ele perdeu uma disputa no Império Serrano, em 1987, e quis resolver na bala, atirando em Jamil Cheiroso, o mesmo que o havia levado de volta à escola, e no então vice-presidente, Roberto Cunha. Mas acabou perdoado e voltou a disputar samba lá, tendo sido vencedor em sete ocasiões. Apesar do perfil valentão, ele tentou convencer Aluísio a mudar o verso que falava em “superescolas de samba S/A”.

“Vai arrumar confusão com os bicheiros!”, temia ele, que acabou deixando o protesto passar.

— Essa é mais uma das histórias que tornam aquele desfile icônico — avalia Emerson Pereira, de apenas 23 anos, que trabalha na comunicação da escola e dirigiu o documentário ao lado de Nathan Oliveira. — O samba, o enfrentamento às escolas mais ricas, até os pontos que a Imperatriz perdeu por não cumprir o regulamento (a coirmã de Ramos desfilou com destaques em cima dos carros alegóricos, o que era proibido em 1982; sem isso, ela teria sido a campeã)… Sou de Nilópolis, moro pertinho da quadra da Beija-Flor, mas, com isso tudo, já me tornei um neoimperiano.

Presidente do Império Serrano 40 anos depois do alerta do “Bumbum paticumbum prugurundum”, Sandro Avelar conta com as bênçãos da efeméride para retornar ao Grupo Especial.

— Que o Império volte a ser como naquela época, uma escola capaz de emocionar e, ao mesmo tempo, de competir.


Fonte: O Globo

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