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Simpático e inofensivo, 'No Ritmo do Coração' é o novo favorito ao Oscar de melhor filme


Longa sobre família de surdos venceu três prêmios importantes nos últimos dias


PORTO VELHO, RO - Ninguém pode acusar a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de ousadia. Quase todas as vezes em que precisou escolher entre a inovação e o sentimentalismo, a entidade por trás do Oscar ficou com este último. Inúmeros filmes que entraram para a história do cinema perderam o prêmio principal para obras de fácil digestão, que caíram no semiesquecimento pouco tempo depois.

O exemplo mais recente é "Green Book - O Guia", vencedor do Oscar de melhor filme em 2019. O diretor Peter Farrelly sequer foi indicado em sua categoria, e boa parte da crítica caiu matando em cima da trama, que promove uma visão edulcorada do racismo e faz com que o espectador branco saia contente do cinema (o negro, nem tanto).

Quem merecia ganhar naquele ano era "Roma". Mas o longa de Alfonso Cuarón era uma produção mexicana falada em espanhol, bancada pela Netflix. Os velhinhos da Academia preferiram premiar o que viam como prata da casa. "Green Book" não chega a ser um desastre, mas é um filme que usa sua suposta mensagem de fraternidade para esconder o quanto é medíocre.

Parece que estamos caminhando para um repeteco desse fenômeno no Oscar deste ano. O primeiro filme a despontar como favorito foi "Belfast", de Kenneth Branagh, uma comédia dramática que evoca a infância do cineasta na tumultuada capital da Irlanda do Norte na década de 1960.

Até que, em dezembro do ano passado, "Ataque dos Cães" estreou na Netflix. O longa da neozelandesa Jane Campion reúne inúmeras qualidades: atuações sublimes, paisagens deslumbrantes, meticulosa reconstituição de época e um roteiro que vira de cabeça para baixo um dos gêneros mais caretas da sétima arte, o faroeste.

"Ataque dos Cães" disparou nas casas de apostas, e seu favoritismo pareceu se confirmar quando as indicações ao Oscar foram anunciadas em fevereiro: nada menos do que 12, o recorde da temporada.

Se a cerimônia de premiação tivesse acontecido no começo deste mês, é provável que "Ataque dos Cães" saísse com o Oscar de melhor filme. Mas a entrega das estatuetas está marcada para o próximo domingo, 27 de março, um mês e meio depois do anúncio das indicações. Nesse meio tempo, um longa de pretensões modestas e carreira discretíssima começou a pegar embalo: "No Ritmo do Coração", o remake americano do francês "A Família Bélier". No Brasil, está disponível no Apple TV +.

O título original em inglês é "CODA", a sigla para "child of deaf adults" (filho de adultos surdos). De fato, a história é protagonizada por uma adolescente que é a única ouvinte de sua família. Seus dois pais e seu irmão mais velho são deficientes auditivos, e ela serve de mediadora entre eles e o mundo.

Acontece que a moça sonha ser cantora, e para isto precisará deixar a cidadezinha litorânea em que vive para estudar numa grande metrópole. Seus pais são contra, e ela vive o conflito entre perseguir seu objetivo ou cuidar de sua família.

"No Ritmo do Coração" é um filme redondinho. Tem humor e emoção nas doses certas, além de muita música. Mas também é careta e previsível: não avança um milímetro a história do cinema, nem causa maiores controvérsias.

Nas últimas semanas, no entanto, o longa saiu vitorioso em três premiações importantes. Primeiro, venceu o troféu de melhor elenco dado pelo Sindicato dos Atores da Tela, o SAG. No sábado (19), ganhou como melhor filme na premiação do PGA, o sindicato dos produtores, um dos precursores mais certeiros do Oscar. E, no domingo (20), foi escolhido pelo sindicato dos roteiristas (WGA) como o melhor roteiro adaptado de 2020.

Todos esses prêmios são sinais, fortes sinais, de que "No Ritmo do Coração" é o novo favorito ao Oscar de melhor filme. É uma canja de galinha cinematográfica, quentinha e de sabor anódino. Já "Ataque dos Cães" vem dividindo opiniões, porque trata de violência e homossexualidade.

Jane Campion ainda deve levar o Oscar de melhor diretora, até pelo conjunto da obra. Mas seu filme incomoda. Num mundo abalado por uma pandemia interminável e uma guerra insana, "No Ritmo do Coração" desponta como a opção inofensiva. Uma típica atração da Sessão da Tarde, feita para nos desligarmos de problemas mais sérios –e que ainda lida com um tema atual, o capacitismo. Suspeito de que já ganhou


Fonte: Folha de São Paulo

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