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'Rato de redação': Histórias dos bastidores do Pasquim são retratadas em novo livro


‘Realmente era a diversão de que falam’, diz Sérgio Augusto, um dos integrantes do Pasquim, que tem história contada em livro


PORTO VELHO, RO - Certa feita, o Pasquim, famoso por suas entrevistas regadas a uísque, chamou Rita Lee e Tim Maia para um papo. Os dois astros da música, ainda jovens, em 1970, foram entrevistados juntos porque os jornalistas acharam que um dos dois sozinho não renderia uma das famosas “entrevistas do Pasquim”. Eles estavam certos, até demais.

— Nem Tim nem Rita gostavam muito de beber na época, e a entrevista acabou saindo fraquinha — conta o jornalista gaúcho Márcio Pinheiro, 55 anos, autor de “Rato de redação: Sig e a história do Pasquim” (Matrix Editora), biografia do revolucionário tabloide ipanemense (1969-1991) que terá lançamento no Rio no próximo dia 31, às 18h30, na Livraria Argumento, no Leblon.

Há décadas historiador da imprensa brasileira e colecionador do Pasquim, Pinheiro baseou o livro em seu farto material e em conversas com Sérgio Augusto, Martha Alencar e Reinaldo Figueiredo, três ex-titulares do tabloide. A ideia original do autor era aproveitar o cinquentenário do periódico, em 2019, para contar a história da redação que uniu nomes como Henfil, Ivan Lessa, Tarso de Castro, Paulo Francis, Jaguar, Ziraldo, Sérgio Cabral e tantos outros.

— Achei que meu livro seria um dentre vários que surgiriam com a efeméride — conta ele, que ficou surpreso ao ver que foi o único que teve a ideia, ou que a levou adiante, em um momento “entre empregos”. — Além de tudo o que eu já tinha em casa, o Pasquim está inteirinho digitalizado pela Biblioteca Nacional. Minha ideia foi mesmo contar a história em cima do arquivo.

Cara de pau

De fato, é só dar um pulo no acervo digital da instituição (memoria.bn.br) que lá estão Ibrahim Sued dizendo que era um imortal sem fardão, Chico Buarque explicando por que é tricolor e os desenhos de Jaguar (que, aos 90 anos, mandou um exclusivo para Márcio festejando o livro). “O Pasquim surge com duas vantagens: é um semanário com autocrítica, planejado e executado só por jornalistas que se consideram geniais e que, como os donos de jornais não reconhecessem tal fato em termos financeiros, resolveram ser empresários”, diz o editorial cara de pau da edição de estreia, de 26 de junho de 1969.

— O livro é muito fiel ao que acontecia naquela redação, principalmente na época em que era um prédio na Rua Clarice Índio do Brasil, no Flamengo — conta Sérgio Augusto. —E realmente era a diversão toda de que as pessoas falam. Eram figuras muito engraçadas, como o Francis, com seu mau humor e seus sambas e marchinhas, e o Ivan Lessa, um moleque com idade mental de 12 anos, que passava o tempo fazendo bullying com a Nelma, nossa secretária.

A figura mais perene dos 22 anos de Pasquim foi Sérgio Jaguaribe, o Jaguar, cartunista e criador do rato Sig (de Sigmund Freud, o pai da psicanálise).

— Sig era filho meu e do Ivan Lessa — lembra Jaguar, de sua casa na serra. — Ele era responsável por uma espécie de editorial, fazia comentários e destacava trechos dos textos, em desenhos por cima das páginas já diagramadas. E, quando o Pasquim acabou, aconteceu o contrário do ditado: foi o navio que deixou o rato.

No auge, o debochado tabloide chegou a vender mais de 200 mil cópias por semana, superando publicações como as revistas Veja e Manchete, onde, aliás, alguns dos pasquinenses também escreviam.

Além da competência do staff (“Tarso era o dínamo que tocava a redação, ‘o mais louco de todos’, segundo Jaguar”; “Sérgio Augusto tem texto e memória maravilhosos, as coisas dele não envelheceram até hoje”), o autor do livro aponta os métodos pouco ortodoxos como parte da razão do sucesso. A vivência nas redações (e botequins) pelo Brasil ajudaram o jornal a ter colaboradores que iam de Chico Buarque, correspondente em Roma na época do exílio, a Carlos Drummond de Andrade.

— O Drummond subia a pé a Rua Saint-Roman, no pé do Pavão-Pavãozinho, para levar os textos que saíam no Pasquim, na época em que a redação era lá — lembra Jaguar. — Ele, na verdade, estava paquerando a Nelma. Sorte a nossa.

Entre seções e textos simplesmente batizados com os nomes de seus autores, o Pasquim entrou para a história pelas entrevistas, algumas históricas, como as de Leila Diniz, Ibrahim Sued (que antecipou ao jornal o então futuro presidente do Brasil, Médici, que se seguiu a Costa e Silva) e de políticos como Leonel Brizola.

Combate à censura

Por trás (ou na frente, ou no meio) de toda a galhofa, o Pasquim tinha como motor central o combate à ditadura e à censura. Isso rendeu a famosa prisão de boa parte da redação, no fim de 1970. Sérgio Cabral estava em Campos, no Norte Fluminense, quando recebeu um telefonema da mulher, a museóloga Magaly Cabral.

— Ele ficou preocupado, pensou que era algum problema com o filho, Serginho (o ex-governador do Rio, atualmente preso) — conta Márcio. — Quando ela disse que os agentes da ditadura tinham ido lá para prendê-lo, ele ficou aliviado: “Graças a Deus!”.

Quando Sérgio Cabral voltou ao Rio, tomou umas cervejas e se entregou, junto com Jaguar e o dramaturgo Flávio Rangel.

— Eu nunca me diverti tanto quanto naquela cela — lembra Jaguar, às gargalhadas. — No Natal, o Antonio’s (tradicional bar da boemia da Zona Sul do Rio) nos mandou uma ceia, ficamos comendo, bebendo vinho e oferecendo aos guardinhas, que não acreditavam no que estava acontecendo.

Apesar de o cárcere ter sido relativamente leve para os profissionais do Pasquim, o episódio foi um racha na redação:

— Tarso brigou com o Millôr, acusando-o de covardia por se esconder e não acompanhar os colegas na prisão — conta Márcio Pinheiro.

A partir da metade dos anos 1970, segundo o autor, o jornal se tornou mais politizado, principalmente com a Anistia, no fim da década, que trouxe de volta do exílio figuras importantes da política como Brizola, Miguel Arraes, Fernando Gabeira, Darcy Ribeiro e Luiz Carlos Prestes, todos eventualmente entrevistados nas páginas do Pasquim. Foi na primeira metade daquela década que o jovem Reinaldo apareceu na redação com um desenho e foi imediatamente contratado.

— Minha temporada lá foi fundamental para o que aconteceu depois —diz o Seu Casseta, fundador também do Planeta Diário. — Foi no Pasquim, quando era o editor de humor, que comecei a experimentar muita coisa, junto com Hubert e Cláudio Paiva. Isso foi uma espécie de laboratório para a criação do Planeta Diário.

Com o fim da ditadura e uma debandada dos jornalistas para outras redações, que exigiam exclusividade, o semanário foi morrendo.

— Na eleição de 1986, quando Moreira Franco se tornou governador do Rio, ele já estava morto —avalia Márcio. — Jaguar seguiu tocando até 1991 como aquele japonês da Segunda Guerra, que ficou escondido anos numa floresta sem saber que o conflito tinha acabado.


Fonte: O Globo

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