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'Formigas no paraíso': livro de estreia de Mateus Baldi lança novo olhar sobre as pequenas tragédias do Rio

 

Contos trazem vozes femininas e tipos que evocam os canalhas de Nelson Rodrigues

PORTO VELHO, RO - Os contos de “Formigas no paraíso”, primeiro livro de Mateus Baldi, até aqui crítico e jornalista, respiram e transpiram juventude. A começar pelo ótimo título, saído de uma das narrativas. Provocação divertida. Quando tais ares jovens vêm de escritor hábil, senhor de uma escrita que já surge pessoal, merecem certamente atenção.

O tema fundamental das narrativas, porém, nada tem de novidade. Novo é mesmo o olhar. Trata-se, mais uma vez, da tragédia burguesa vivida em seus vários matizes por personagens da vida urbana por aqui. São personagens que circulam pelo Rio, dos subúrbios à Barra da Tijuca, alguma lembrança da Cinelândia e, é claro, Copacabana, o bairro que contém várias cidades em seu espaço.

Cada um dos protagonistas das narrativas curtas vai sendo construído com ironia ou quase piadas com o politicamente correto e outros constrangimentos. “Cheguei à conclusão de que tenho pavor de gente velha”, pensa a mulher que perdeu o vibrador durante uma viagem, e continua: “Essa cidade é horrível. Nojenta. Cheia de pobre e gente mal vestida.”

São pensamentos secretos ou nem tanto dos que pertencem ao andar de cima da cidade, alvo principal do espírito crítico dos contos. A esses se opõem outros ocupantes da cidade bem diversos e olhados com curiosidade ou carinho: o apontador do jogo do bicho, o motorista do táxi aromatizado, a travesti com 30 anos de rua, as prostitutas baratas.

Os grandes momentos do livro, no entanto, se realizam quando Baldi assume a voz das mulheres. Aí está o grande desafio que o autor enfrenta com sucesso. Sabemos que o uso da primeira pessoa é recurso importante da escrita de mulheres na literatura contemporânea. Pois é justamente o apropriar-se desta estratégia que o leva às passagens mais interessantes.

Aparecem aí importantes temas da atualidade, sobretudo a questão da maternidade, tão discutida. Em “De cair a chuva”, basta a prática da corrida matinal para a mãe se sentir culpada: “o pai viajando e você sendo ausente correndo até a Urca debaixo de uma garoa que gruda a malha fina da camisa na sua pele de mãe ausente, mãe demente”.

Se não são mulheres que falam, são outras que são observadas com a ternura que merece a senhora de blusa florida com tecido já gasto caminhando sob o sol. A síntese das dificuldades vividas pelas mulheres em suas complexas relações aparece na narrativa da que tentou várias vezes ser casada. O último dos maridos a acusara de ser viva demais.

Já os homens, são todos canalhas. Em maior ou menor grau, exercem os privilégios que a sociedade patriarcal lhes garante. Traem sempre, mentem, enganam. Pode ser uma traição banal, pode ser o exercício da indiferença ou da vaidade.
Ambiguidade faz falta

Essa tragédia pequeno-burguesa não pode deixar de nos lembrar nosso dramaturgo maior, o filósofo da Aldeia Campista, Nelson Rodrigues. Se bem que o Shakespeare pernambucano nunca diria, como Baldi, diante da Copacabana suja, “O Rio de Janeiro foi feito para sumir”, pois sumiria junto com o bairro sua fonte de inspiração.

É aí que as coisas se complicam. Quando lemos “Mais alto que o mundo”, nos deparamos com a mesma agilidade de outras narrativas ao contar o assédio que um rapaz de corpo belo, atlético, monitor de esportes, sofre por parte de dois homens mais velhos. Canalhas, mais uma vez, que contrastam com a quase inocência do belo das piscinas.

Quem leu ou assistiu a “O beijo no asfalto” sente então falta do mérito maior de Nelson Rodrigues, a ambiguidade, certo cinismo voluntariamente disfarçado que aproxima as misérias humanas do leitor ou espectador. Sem ambiguidade, que precisa de experiência para ser cultivada, o conto resulta moralista, o que, estou convencida, não combina com a novidade que o livro representa.

Fonte: O Globo

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