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Árvore gigante gera polêmica no traçado de ciclovia em São Paulo



A figueira que ocupa todo o canteiro central da avenida Indianópolis, em Moema, zona sul de São Paulo; árvore pode chegar a 60 metros de altura e tem raízes aéreas - Bruno Santos/Folhapress


PORTO VELHO, RO - O traçado da ciclovia da avenida Indianópolis, em Moema, na zona sul de São Paulo, tinha tudo para ser um ponto pacífico entre ciclistas, motoristas e moradores do entorno. Mas uma figueira gigantesca que hoje já estica parte de suas raízes pelas beiradas das faixas para automóveis é o centro da controvérsia sobre quem deve ceder cada centímetro em meio ao espaço urbano.

Com a árvore no meio do caminho, não sobra espaço no canteiro central para a passagem da ciclovia. Não há sequer uma pequena brecha em cada lateral do tronco, de cerca de dez metros de circunferência. A própria figueira já chega a invadir 40 centímetros de pista em cada mão da avenida.

O Conselho Participativo da Subprefeitura da Vila Mariana, que é formado por moradores da região, envolveu-se ativamente na história. Primeiro, certificou-se de que a árvore não seria arrancada do local, o que é visto como um absurdo em uma cidade cheia de concreto, asfalto e com a vegetação tão degradada, como a capital.

Na sequência, a preocupação foi evitar que calçadas fossem estreitadas, para que o ônus não ficasse com os pedestres. "A nossa dedicação é para não diminuir as calçadas. Seria anacrônico fazer isso em pleno século 21", afirma o arquiteto Durval Tabach, 56, um dos 15 integrantes do conselho.

Outra integrante do conselho participativo, a publicitária e empresária Suzana Vilhena, 38, preocupa-se também com outros modais que vão além do transporte motorizado. "A gente olha para São Paulo e busca ter uma cidade para pessoas, com desenvolvimento sustentável. Tem essa questão da mobilidade ativa, de redução na emissão de poluentes, o quanto o carro acaba sendo um agente poluidor", explica.

Nesse contexto, a ciclovia da Indianópolis é fundamental para ligar a região do Jabaquara à área próxima do parque Ibirapuera, uma conexão importante e desejada há muitos anos por quem pedala. Ela faz parte do plano aprovado para a construção de mais de 48 km de estrutura cicloviária na cidade nos próximos meses. Em 2021, a capital teve 41 ciclistas mortos, maior número desde 2015, segundo o Infosiga.

Nas redes sociais, assim que o conselho participativo fez uma postagem a respeito, muita gente defendeu a permanência da árvore e o estreitamento das faixas de carro, sem interferir nas calçadas, por exemplo. Mas parte das reações foi extremada em relação, principalmente, à figueira.

"Tira a árvore e pronto, gente mimizenta", afirmou uma das pessoas. "Essa árvore já é um perigo hoje, pois invade a faixa de rolamento e não há nenhuma sinalização", disse outra.

Também surgiu quem defendesse a "substituição". "Talvez um Termo de Ajustamento de Conduta com o Ministério Público e o compromisso de substituir essa árvore por um volume maior de verde na mesma região?", questionou uma das pessoas. Teve ainda quem se mostrou descontente com a própria implantação da ciclovia, que já foi discutida por anos até a aprovação em audiência pública.

Quem passa pelo local com frequência também tem opinião a respeito de uma solução. "Ela [a árvore] já é complicada. Ontem mesmo, o pessoal estava com cone ali e deu problema, porque diminuiu a faixa. Quase derrubou um rapaz. Vai ter muita divergência mesmo", afirmou o segurança Tavares de Oliveira, 44.

Se é problema para o trânsito, a figueira serve de casa para a fauna da região. "No frio, os gambás saem da árvore e vêm se aquecer aqui nos refletores. Como é um bichinho meio arisco, já tivemos até que chamar os bombeiros para pegá-los no começo das manhãs", diz o técnico de enfermagem Reinaldo Rocha, 44, que trabalha em um estabelecimento médico. "Apesar de ônibus grandes passarem por aqui, dá para estreitar essas faixas."

Segundo os trabalhadores que fazem a ciclovia, em duas semanas a obra deverá chegar até a figueira. Eles dizem que estão previstos contornos pelos dois lados do tronco, tomando parte do espaço dos carros.

Questionada, a prefeitura, por meio da Secretaria Municipal de Mobilidade e Trânsito e da CET (Companhia de Engenharia de Tráfego), explica que os projetos elaborados para implantação da ciclovia nas avenidas República do Líbano e Indianópolis preservam as árvores localizadas nos canteiros centrais das vias.

"Os projetos foram cuidadosamente elaborados para que as ciclovias desviem de todas as árvores, com ajustes na largura do canteiro e das faixas de rolamento, permitindo a manutenção da capacidade viária e preservando o nível de serviço das calçadas", diz, em nota. Ou seja, calçadas devem ser mantidas como estão e as faixas para carros serão estreitadas.

Em um cálculo estimado pela reportagem no local, levando em consideração que a ciclovia tenha 90 centímetros de largura em cada lado do tronco, ainda seria possível possível manter três faixas para veículos, em ambas as mãos da avenida, com cerca de 2,5 metros de largura cada.

Em outros pontos da cidade, como na altura do número 121 da avenida Sumaré, figueiras também foram contornadas ou tiveram raízes saltadas pelo concreto para a implantação de ciclovias. Grades metálicas foram colocadas para proteger ciclistas de queda na via.




O QUE É?

Mas que tipo de árvore é essa que gera tanta discussão e a busca por soluções mais adequadas no ambiente urbano? Professor de Ecologia do Instituto de Biociências da Unesp, em Botucatu, Felipe W. Amorim afirma que é uma espécie exótica de figueira, cujo nome científico é Ficus elastica. "É conhecida no mundo todo como árvore-da-borracha", explica.

Segundo o especialista, para que não se faça confusão com outra árvore-da-borracha, é chamada também de "falsa seringueira".

Amorim diz que é uma planta amplamente cultivada em todas as regiões tropicais por ter crescimento rápido, ser robusta e não demandar muitos cuidados. Começa até em vasos dentro de casa e ganha depois proporções colossais.

O especialista diz que a figueira não é uma árvore das mais adequadas para plantio próximo a ruas e avenidas das grandes cidades. Justamente pelo porte gigantesco, porque um exemplar pode atingir, em alguma ocasiões, 60 metros de altura

Além das raízes subterrâneas, imensas, que levantam calçadas, asfalto e estouram encanamentos, a figueira emite também raízes aéreas, que parecem "barbinhas" descendo a partir dos galhos. Quando essas estruturas tocam o solo, começa outro problema. "Dão início a um processo de crescimento que, em plantas, chamamos de secundário. Vão engrossar e ficar muito similares a troncos, que servem como escoras", explica. Com isso, cria copas gigantescas.

Apesar dos problemas criados no ambiente urbano, são vários os benefícios da figueira, segundo o professor da Unesp. Sombra agradável, abrigo e alimento para a fauna estão entre eles.


Fonte: Folha de São Paulo

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