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Após negociação presencial, Rússia anuncia que vai reduzir 'drasticamente' ataques em Kiev e arredores



Representantes ucranianos indicaram que houve avanços também para possível encontro entre os presidentes Vladimir Putin e Volodymyr Zelensky; Ucrânia sinaliza que aceitará status de neutralidade em troca de garantias de segurança


PORTO VELHO, RO — Após quatro horas de mais uma rodada de negociações entre russos e ucranianos, desta vez de maneira presencial, um representante do Ministério da Defesa da Rússia anunciou nesta terça-feira que as tropas do país vão reduzir "drasticamente" os ataques em Kiev e nos arredores da capital ucraniana, além da cidade de Chernihiv, no Norte da Ucrânia. Na mesa, houve ainda avanços sobre uma proposta da Ucrânia para adotar um status de neutralidade, incluindo a promessa de que não se juntaria à Otan ou permitiria a presença de militares estrangeiros em seu território, em troca de garantias de segurança.

Representantes ucranianos, reunidos em Istambul, na Turquia, ainda indicaram que houve avanços também para um encontro entre os presidentes Vladimir Putin e Volodymyr Zelensky, uma demanda de Kiev desde antes do início da guerra, mas que até agora vem sendo ignorada pelo Kremlin.

Por enquanto, o principal resultado concreto é a promessa russa de reduzir sua ofensiva em algumas áreas do país, incluindo em Kiev, onde as forças terrestres estão relativamente estagnadas, apesar dos ataques aéreos recorrentes, que atingiram prédios residenciais e instalações médicas. Segundo o vice-ministro da Defesa russo, Alexander Fomin, essa decisão é destinada a "incrementar a confiança mútua para futuras negociações, com o objetivo de acertar e assinar um acordo de paz com a Ucrânia".

— Partimos do princípio de que decisões importantes e relevantes serão tomadas em Kiev, e serão criadas condições para que o trabalho ocorra de forma normal — declarou Fomin, citado pela RBC. Não foram feitas referências aos combates em outras regiões da Ucrânia, como Mariupol, cenário de uma intensa batalha pelo controle da cidade.

Horas antes dos dois lados se sentarem à mesa em Istambul, o Financial Times havia revelado pontos que estariam em discussão, a começar pela desistência do lado russo de incluir exigências relacionadas a "desnazificação", "desmilitarização" e "proteção do status do idioma russo" na Ucrânia, que ajudaram a formar a justificativa para a invasão militar, iniciada no dia 24 de fevereiro. O próprio presidente russo, Vladimir Putin, usou os argumentos em diferentes momentos do conflito. Nesta terça, nenhum dos dois lados se referiu a tais pontos nas declarações a jornalistas.


Garantias para a Ucrânia

Além disso, Kiev sinalizou que poderia aceitar o status de neutralidade em troca de garantias de segurança, o que significa que o país não se juntaria a alianças militares ou hospedaria bases, algo confirmado nesta terça-feira pelos negociadores.

— Se conseguirmos consolidar essas disposições-chave, e para nós isso é o mais fundamental, então a Ucrânia estará em posição de realmente fixar seu status atual como um Estado que não fará parte de um bloco e não nuclear, na forma de neutralidade permanente — disse o reptesentante ucraniano Oleksander Chaly. — Não vamos abrigar bases militares em nosso território, assim como não empregar contingentes militares em nosso território, e não entraremos em alianças político-militares.

Sobre as garantias de segurança, tema que surgiu nas conversas nos últimos dias, a proposta traz uma linguagem similar à do Artigo 5 do tratado que rege a Otan, e que considera um ataque contra um de seus integrantes como um ataque a todos. Na prática, os garantidores se veriam obrigados a intervir em apoio à Ucrânia em caso de violação de sua integridade territorial. Nesta terça, os ucranianos sugeriram os nomes de Estados Unidos, China, França e Reino Unido — membros do Conselho de Segurança da ONU —, e também Turquia, Alemanha, Polônia e Israel.

Em entrevista ao Financial Times, David Arakhamia, líder do partido de Zelensky no Parlamento e integrante da equipe de negociação, tal proposta também precisaria ser aprovada em referendo pela população um processo que poderia levar até um ano.

— A única questão definida é o tipo de garantias internacionais que a Ucrânia busca, mas temos que receber a aprovação dos garantidores, caso contrário, o acordo jamais sairá do papel — disse Arakhamia.

O principal negociador russo, Vladimir Medinsky, afirmou, por sua vez, que examinará as propostas ucranianas e as reportará ao presidente Vladimir Putin. As negociações foram o primeiro encontro cara a cara desde 10 de março, quando as reuniões passaram a ser realizadas por videoconferência.

— Essas propostas serão consideradas em um futuro próximo, relatadas ao presidente, e nossa resposta será dada — disse Medinsky. Segundo ele, Moscou não se opõe à entrada de Kiev na União Europeia, um processo que já está em andamento e que conta com o apoio de vários membros, mas que não deve ocorrer de forma rápida, como chegaram a sugerir alguns diplomatas.

Também foram feitas concessões relacionadas ao status da Crimeia, anexada pela Rússia em 2014, e das regiões separatistas de Donetsk e Luhansk. De acordo com Medinsky, Kiev aceitou negociar um eventual retorno dessas áreas ao seu território, mas em um momento posterior, e elas não estariam incluídas nas garantias internacionais de segurança exigidas pela Ucrânia.

— A Ucrânia renuncia ao desejo de retomar a Crimeia e Sebastopol por meios militares, e declara que isso só é possível por meio de negociações. Claro, isso não corresponde de forma alguma à nossa posição, mas a Ucrânia apresentou sua própria abordagem — declarou Medinsky ao Canal 1.

Hoje, a Rússia considera que a Crimeia é parte integrante de seu território, e que tal anexação atendeu a um desejo da população local, oficializado em plebiscito ocorrido em 2014, mas não reconhecido por boa parte da comunidade internacional. De acordo com os negociadores ucranianos, o status futuro da região passará por um período de 15 anos de consulta, a ser iniciado após um cessar-fogo completo. Quanto às repúblicas separatistas do Leste, Moscou reconheceu suas declarações de independência dias antes do início da guerra, e as autoridades locais já sinalizaram a intenção de realizar plebiscitos para se juntar à Federação Russa.

O Ministério das Relações Exteriores da Turquia confirmou que as negociações não continuarão na quarta-feira, e uma fonte próxima às equipes de negociação declarou que as conversas, quando forem retomadas, acontecerão por videoconferência. Em declarações à imprensa, Medinsky afirmou que o diálogo em Istambul foi "significativo", e afirmou que uma reunião entre Putin e Zelensky está mais perto de acontecer.

— Após as discussões significativas de hoje [terça-feira] nós decidimos e propusemos uma solução, segundo a qual é possível a reunião dos chefes de Estado simultaneamente com a assinatura do tratado por parte dos ministros das Relações Exteriores — disse o negociador. — Com a condição de que se trabalhe rapidamente no acordo e se encontre o compromisso necessário, a possibilidade de chegar à paz estará muito mais perto.

A posição é similar à de Arakhamia, pelo lado ucraniano.

— Os resultados da reunião de hoje [terça-feira] são suficientes para um encontro a nível de chefes de Estado — declarou.


Fonte: O Globo

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